MAROCAS

Fevereiro 12 2013

Excelente reflexão esta de António Costa no programa "Quadratura do Círculo"
- SIC Notícias de 5ª feira: às 23 horas


 (...) A situação a que chegámos não foi uma situação do acaso. A União
Europeia financiou durante muitos anos Portugal para Portugal deixar de
produzir;  não foi só nas pescas, não foi só na agricultura, foi também na
indústria, por ex. no têxtil.
 Nós fomos financiados para desmantelar o têxtil porque a Alemanha queria (a
Alemanha e os outros países como a Alemanha) queriam que abríssemos os
nossos mercados ao têxtil chinês, basicamente porque ao abrir os mercados ao
têxtil chinês eles exportavam os teares que produziam, para os chineses
produzirem o têxtil que nós deixávamos de produzir.

 E portanto, esta ideia de que em Portugal houve aqui um conjunto de pessoas
que resolveram viver dos subsídios e de não trabalhar e que viveram acima
das suas possibilidades é uma mentira inaceitável. Nós orientámos os nossos
investimentos públicos e privados em função das opções da União Europeia: em
função dos fundos comunitários, em função dos subsídios que foram dados e em
função do crédito que foi proporcionado.

E portanto, houve um comportamento racional dos agentes económicos em função
de uma política induzida pela União Europeia. Podemos todos concluir e acho
que devemos concluir que errámos, agora eu não aceito que esse erro seja um
erro unilateral dos portugueses. Não, esse foi um erro do conjunto da União
Europeia e a União Europeia fez essa opção porque a União Europeia entendeu
que era altura de acabar com a sua própria indústria e ser simplesmente uma
praça financeira.

E é isso que estamos a pagar!

A ideia de que os portugueses são responsáveis pela crise, porque andaram a
viver acima das suas possibilidades, é um enorme embuste.

Esta mentira só é ultrapassada por uma outra: a de que não há alternativa à
austeridade, apresentada como um castigo justo, face a hábitos de consumo
exagerados.

Colossais fraudes.

Nem os portugueses merecem castigo, nem a austeridade é inevitável.

Quem viveu muito acima das suas possibilidades nas últimas décadas foi a
classe política e os muitos que se alimentaram da enorme manjedoura que é o
orçamento do estado. A administração central e local enxameou-se de milhares
de "boys", criaram-se institutos inúteis, fundações fraudulentas e empresas
municipais fantasma. A este regabofe juntou-se uma epidemia fatal que é a
corrupção. Os exemplos sucederam-se. A Expo 98 transformou uma zona
degradada numa nova cidade, gerou mais-valias urbanísticas milionárias, mas
no final deu prejuízo. Foi ainda o Euro 2004, e a compra dos submarinos, com
pagamento de luvas e corrupção provada, mas só na Alemanha. E foram as
vigarices de Isaltino Morais, que nunca mais é preso. A que se juntam os
casos de Duarte Lima, do BPN e do BPP, as parcerias público-privadas 16 e
mais um rol interminável de crimes que depauperaram o erário público.

Todos estes negócios e privilégios concedidos a um polvo que, com os seus
tentáculos, se alimenta do dinheiro do povo, têm responsáveis conhecidos.

E têm como consequência os sacrifícios por que hoje passamos.

Enquanto isto, os portugueses têm vivido muito abaixo do nível médio do
europeu, não acima das suas possibilidades. Não devemos pois, enquanto povo,
ter remorsos pelo estado das contas públicas.

 Devemos antes exigir a eliminação dos privilégios que nos arruínam.
Há que renegociar as parcerias público-privadas, rever os juros da dívida
pública, extinguir organismos...

 Restaure-se um mínimo de seriedade e poupar-se-ão milhões.

 Sem penalizar os cidadãos. Não é, assim, culpando e castigando o povo pelos
erros da sua classe política que se resolve a crise. Resolve-se combatendo
as suas causas, o regabofe e a corrupção.

 Esta sim, é a única alternativa séria à austeridade a que nos querem
condenar e ao assalto fiscal que se anuncia."

publicado por Fernando Ramos às 16:31

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